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4 fevereiro 2010

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Quem tem medo de Tessália?

Impressionante a reação contra Tessália, a mocinha do Big Brother Brasil. Impressionante e repulsiva.

Escrotos de todos os calibres – de jornal popularesco a espertos da geração 2.0 – caíram de pau na moça, “vagabunda” etc.

Uma manchete resume bem o espírito.

Foto: Reprodução/Meia Hora

Pouco me importa o BBB. Não assisto e não recomendo. Leia aqui. Aliás, essa busca pela audiência e pela repercussão a qualquer preço me enche as pacovinas.

Mas não consigo, ninguém consegue escapar do impacto do BBB na cultura pop brazuca. Por isso, muito me importa o que essa reação à moçoila diz sobre o Brasil.

Tessália, como explicou bem o mestre Maurício Stycer, virou a Geni da internet. Todo mundo jogando bosta.

E muitos comparando com Geisy Arruda. Mas Geisy nunca teve o que dizer.

Tessália é a anti-Geisy. Geisy é uma Grazi pré-banho de loja e aula de etiqueta. Leia aqui.

Tessália é dona do próprio nariz. Aliás, nariz sem cirurgia plástica, narigão com personalidade.

Não fingiu de burra.

Não gosta de apanhar, como a policial lá. Não parece estar em busca de um macho que a sustente.

Foi chegando, falando o que queria, namorando com o cara lá, sem culpa. Um pouco perigosa. Um pouco predadora. Um pouco direta demais. Atributos de homem.

É, portanto, inaceitável para o mulherio, justamente o tipo de mulher que mais causa ressentimentos na categoria.

Dor de cotovelo? Rancor? Medo de assustar os homens? Burrice? Sei lá. E, claro, realidade inaceitável para os machos, a não ser como objeto de fantasias de dominação sexual.

O homem ainda sonha com a mulher recatada da porta pra fora e vadia só pra ele. Como se fosse possível.

O macho brasileiro é muito inseguro. Tem medo de comparação.

A reação a esta menina indica que ainda, em 2010, estamos num Brasil em que a maioria dos homens têm medo das mulheres independentes – e a maioria esmagadora das mulheres, mais ainda.

A esta altura do campeonato, já devia estar claro que uma relação entre iguais é muito mais interessante.

A bunda – fetiche número um nas câmeras dos reality shows – é a preferência nacional porque é sinônimo de passividade e submissão ao sinhô.

Americano, que gosta de fartura, prefere um peitão. Na vida real, longe das câmeras, Tessália pode ser isso ou aquilo. No BBB, ela foi bem mais que um rabinho empinado.

Desconfio que a moça tem futuro.

E já que a supertrônica mulata biônica Beyoncé aterrissa no Brasil, dedico às mulheres independentes minha música favorita do Destiny’s Child. Clique aqui.

Vocês podem não ser uns anjos, mas homem que é homem prefere panteras…

Veja mais:

+ Tessália foi eliminada porque o público médio é machista. E ainda acha que algumas coisas só podem ser feitas por homens

+ Tessália de volta ao Twitter?

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3 fevereiro 2010

comentarios-icon15 Comentários »

Entorpecidos pelo luxo

Enfim uma explicação convincente de por que tem tanto rico safado.

Os pesquisadores Roy Y.J. Chua, da Harvard Business School, e Zi Zou, da London Business School, acabam de publicar um estudo sensacional.

Chama-se “The Devil Wears Prada: Effects of Exposure to Luxury Goods on Cognition and Decision Making.”

A conclusão, basicamente, é a seguinte: quem tem contato com artigos de luxo toma mais decisões em seu interesse próprio. O luxo não induz necessariamente a um comportamento maldoso com relação ao próximo – mas aumenta muito a indiferença com relação ao bem-estar de outras pessoas.

Atenção: a pesquisa indica que nem é necessário você possuir objetos de luxo (roupas caríssimas, carrões etc.). Basta VER fotos de artigos de luxo. Sério. A metodologia da pesquisa envolvia tanto contato com imagens de artigos de luxo, como associação de palavras. Sempre feita com estudantes.

Os estudantes que viam fotos de artigos de luxo mostraram uma probabilidade maior de tomar decisões egoístas – lançar um carro poluente, ou um software cheio de falhas – do que os estudantes que não viram.

Veja aqui os dados de uma pesquisa do Ibope sobre o perfil de consumo da elite brasileira.

Os pesquisadores chegam ao ponto de afirmar que, uma reunião de negócios realizada em uma sala modesta, em vez de em um escritório super chique, pode chegar a conclusões bem diferentes: “Trabalhar em um ambiente rodeado por dinheiro e luxo pode muito bem ter um efeito na cognição e na tomada de decisões.”

Parece uma conclusão meio moralista. Pode ser. Mas os pesquisadores são de duas escolas de negócios respeitadíssimas. Isso responde muito bem aquela velha questão: se o cara já está cheio da grana, por que continua roubando? Por que a empresa bilionária continua poluindo? Por que o governante usa de maneira tão nefasta os recursos públicos?

Justamente porque o figura está cheio da grana, vivendo no luxo. É um círculo vicioso, a cobra que come o próprio rabo…

Mais dados aqui.

Veja mais:

+ Quando o dinheiro dá vergonha

+ Marca brasileira lança versão de sapato de luxo francês

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2 fevereiro 2010

comentarios-icon23 Comentários »

O custo do material e o custo espiritual

Meu amigo Henrique mudou para a Inglaterra alguns anos atrás. Na época, achei que estava louco: dois filhos no primário, uma bebezinha recém-nascida e vai se aventurar em Londres? Ele explicou: pois justamente.

Com nosso salário – ele é professor de inglês em cursinho e a mulher, de flamenco – como vamos sustentar essa molecada toda na escola, seguro saúde, dentista etc.? Em Londres, isso tudo é de graça e de qualidade. Foi e não voltou mais.

Eu não tinha filho então. Não fazia ideia de quanto custa. É uma grana preta.

O Brasil tem esse problema: tudo que é pepino é privatizado. Temos que pagar tudo e pagar o Estado também, claro. Então os vários governos enchem o cofre (e distribuem depois para os amigos, empresas gigantes etc.) e esvaziam nosso bolso.

Esta semana há que se decidir se Tomás vai fazer uns cursinhos paralelos na escola. Não basta a escola custar uma bala, tem o resto. Capoeira é bom manter.

Inglês, duas aulinhas por semana de iniciação, mais de mil reais no ano. Robótica parece sensacional… mais de mil reais no ano. E por aí vai.

Não é questão de não querer ou poder investir na educação do meu filho. O ponto é que o negócio todo é insano e ridículo. Como pode o primeiro ano primário custar a mesma coisa que uma faculdade?

E parece que não posso reclamar. A conta total de material do meu filho ficou menos de cem reais. A do melhor amigo do meu filho, que está mudando de escola, mais de oitocentos reais. Oitocentos!

Getty Images

Uma escola que cobra esse tipo de grana de material está tão claramente batendo a carteira da família, que acho até perigoso deixar um filho estudando lá.

Pagar tão caro para seu filho estudar, quando em outros países as crianças estudam de graça e quando o Brasil tem dinheiro para garantir educação de qualidade para todos, tem um custo espiritual enorme. Dá desgosto e nojo.

Um tempo atrás, alguém propôs uma lei que achei brilhante: que todos os políticos eleitos, cargos de confiança e funcionários públicos fossem obrigados a colocar seus filhos estudando em escolas públicas. Seria a única maneira de fazer com que nossos governantes priorizassem a qualidade do ensino gratuito para todos. Sensacional!

Se nós temos bilhões para torrar em Copa do Mundo e Olimpíadas, e bilhões para emprestarmos (a fundo perdido ou a juros amigos) para grandes fazendeiros e grandes empresários,  temos dinheiro para investir em educação.

Esse é o assunto que interessa nas eleições deste ano. O resto é perfumaria.

Veja aqui os preços do material escolar em pesquisa realizada pelo Procon/SP.

Veja mais:

+ Diferença de preço do material escolar supera 200%
+ Lula pede redução de impostos sobre material escolar
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1 fevereiro 2010

comentarios-icon30 Comentários »

Grammy 2010: cada ano tem sua canção

Dueto: Speechless e Your Song, com Elton John e Lady Gaga - Foto: AFP

Você sempre pode contar com essas entregas de prêmios para cravarem um, dois, com sorte três momentos inesquecíveis. O resto é uma chatice sem fim, claro.

Depois que inventaram YouTube e tal, não tem por que atravessar a tralha toda. A gente vai nos vídeos que todo mundo está comentando e pronto.

Mas não é igual. É como você comer uma lasanha deliciosa que você mesmo fez ou uma que você comprou congelada.

Uma coisa é ficar três horas labutando para curtir uns minutinhos. Outra é gratificação instantânea.

Dito isso, eu não vi um segundo do Grammy. Como não vejo mais Oscar. Eu via tudo que era entrega de prêmio até, sei lá, uns cinco anos atrás. Virei a chave e não vejo mais.

Veja fotos da premiação aqui.

O grande ponto nessas premiações é

a) não dar a mínima para quem ganha e

b) não dar a mínima para a breguice.

Porque o prêmio para o mais mala e o estilão Las Vegas é inevitável. Agora, tudo tem limite. Celine Dion homenageando o amor de Michael Jackson pela natureza está além da gastura. Tem que inventar uma palavra nova para isso.

Assista por sua conta e risco:

A grande vencedora foi Beyoncé. Sempre gostosa, uma big estrela, sempre melhor ao vivo. Nos clipes, por alguma razão, dança como uma epiléptica que enfiou o dedinho na tomada. Ganhou porque é linda e uma big estrela.

Veja a lista dos ganhadores dos últimos cinco anos aqui.

Halo, If I Were a Boy e a baladaria toda são terríveis. Seus segundinhos de cover de You Oughta Know sugerem que devia ir pro rock de vez, como sua grande referência, Tina Turner.

O resto, aquelas coisas, Taylor Swift, Green Day, Jay-Z, tudo previsível, um bocejão. Phoenix ganhou de rock alternativo – merece, vá lá; o que não merece continuar existindo é o segmento indie.

Mas os Black Eyed Peas ganharam e ganharam bonito. É o melhor artefato pop do novo século até agora. E este é o vídeo que é a cara de 2009. Sei porque é o favorito do meu filho, que é mais novo que o século 21.

Mas também é meu predileto e levou o Grammy do vídeo do ano.

Ah, e o momento inesquecível? Bem, cada ano tem sua trilha sonora, cada Grammy tem sua grande canção, e este ano foi… Your Song. Lady Gaga e Elton John, duas grandes damas do rock’n'roll, fizeram um dueto emocionante, engraçado, rascante.

Ninguém mais pode duvidar que Lady Gaga veio pra ficar. Estou cozinhando meus pensamentos sobre ela há meses. Depois deste dueto, vai demorar mais um tempo para concatenar minhas ideias. Estou, hmm speechless.

Veja mais:

+ Queen, Led Zeppelin e outros injustiçados do Grammy

+ Beyoncé fatura seis Grammy, mas Álbum do Ano é de Taylor Swift

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29 janeiro 2010

comentarios-icon25 Comentários »

A segunda morte de J.D. Salinger

Salinger

Eu venho esperando esse dia faz muito, muito tempo. O dia em que J.D. Salinger morreu, ontem. Espero que tenham jogado o corpo dele num rio, em vez de enterrado.

Eu li cada palavra que ele escreveu, várias vezes. Ele parou de publicar faz 45 anos, mas não não parou de escrever. Salinger não aparecia em público nem dava entrevistas faz décadas. Há relatos – inclusive de sua filha – de que ele foi ficando cada vez mais louco.

Indicações: virou fã de cientologia, homeopatia, caixa de órgones, bebia urina, não falava com ninguém, fazia dietas severíssimas, praticava a glossolalia e manteve a segunda mulher praticamente presa em casa durante longos períodos.

Todas boas pistas de miolo mole. Ou pelo menos excentricidade. Não me importo. Eu quero ler o que Salinger escreveu desde 1965, o ano em que eu nasci, e que ninguém nunca leu.

Eu quero saber mais sobre a família Glass. Tenho certeza que ele escreveu mais sobre Seymour, Franny, Zooey, a tropa toda. Aguardo calmo. Estou esperando faz tempo.

Agora, o que eu queria mesmo era dar para todos os habitantes do planeta Terra, no dia em que eles completam catorze anos, um exemplar de O Apanhador no Campo e Centeio.

Foi a única coisa boa que me aconteceu em três anos de aula de redação e literatura, no colegial, Piracicaba, 1980. Li, reli, percebi que não estava sozinho.

Qualquer idade é boa pra começar. O primeiro passo você pode dar aqui. Aviso: a obra de Salinger é pequena e você vai acabar bem rápido. Então, vai devagar.

Salinger apareceu, fez o que tinha para fazer e desapareceu dos olhos públicos. Uma espécie de suicídio simulado.

Que coisa impensável para estes nossos dias de exposição permanente, de culto à celebridade, de Twitter e Facebook.

Que tentação de fazer parecido – fechar este blog e envelhecer cada vez mais esquisito, isolado, offline. Silêncio, exílio, astúcia. E humanidade.

É um dia perfeito para peixe-banana.

Veja mais:

+ Morre autor de O Apanhador no Campo de Centeio

+ Veja as notícias do mundo

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28 janeiro 2010

comentarios-icon384 Comentários »

32 razões por que o Metallica é chato

Metallica em 1982 

O Metallica é chato demais.
É chato porque eles fazem cara de mau.
É chato porque eles só usam roupa preta.
É chato porque o nome é idiota.
É chato porque eles são muito mal-humorados.
É chato porque eles não têm nenhum senso de humor.
É chato porque as músicas são todas iguais e chatas.
É chato porque eles eram contra o Napster.
É chato porque tem um milhão de bandas mais extremas do que eles.
É chato porque tem um milhão de bandas mais pop do que eles.
É chato porque é óbvio que eles só estão nessa pela grana.
É chato porque o último disco audível deles saiu em 1991.
É chato porque esse disco audível foi um disco de produtor, que mudou o som deles.
É chato porque thrash metal é chato.
É chato porque tem solos de guitarra chavão.
É chato porque as entrevistas não têm uma frase aproveitável.
É chato como 99% das bandas que venderam 100 milhões de discos.
É chato, tanto que ganhou nove Grammys, o prêmio para os artistas mais chatos.
É chato porque fizeram um documentário para mostrar como eles são sensíveis e problemáticos.
É chato porque foi montado pelo baterista.
É chato porque as letras são ginasiais.
É chato porque é paga-pau da New Wave of British Heavy Metal – que é chatíssima.
É chato porque fizeram não um, mas dois discos de covers.
É chato porque fizeram versão sinfônica de uma balada.
É chato porque não faziam clipes.
É chato porque começaram a fazer e eles são ruins.
É chato porque o show é chato – eu já vi.
É chato porque eles estão velhos.
É chato porque eles estão milionários.
É chato porque é para o moleque espinhudo, inseguro e rancoroso que existe dentro de todos nós.
É chato porque é broxa.
Fuck Metallica, man.

Veja mais:

+ Veja fotos dos shows do Metallica pela América do Sul
+ Metallica faz show em Porto Alegre nesta quinta (28)
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27 janeiro 2010

comentarios-icon46 Comentários »

CSI: o seriado que não é novela, mas virou

Esse negócio de ser fã de séries é muito esquisito. É como ser “fã de música”.

Como assim? Você gosta de umas e não gosta de outras. Mas tenho amigos (mais amigas, na verdade) que são absolutamente onívoros quando se trata de séries. Baixam tudo, assistem tudo.

É comum comentário tipo “a segunda e terceira temporadas foram fracas, mas na quarta melhorou.”

Porque agora tem muita série – quase todas – que você tem que assistir na ordem correta, ou não entende nada do que está acontecendo. Então “não dá pra perder”.

O quê? Você suporta horas e mais horas de chatice pela esperança de que alguma hora a coisa melhore?

É. Justamente.

As séries substituiram, para muita gente, as novelas. Que são exatamente este esquema: sempre os mesmos personagens, sempre a mesma redundância, capítulo após capítulo.

É curioso, então, que um seriado que você não precisa assistir dia após dia esteja substituindo uma novela.

CSI, que a Record estreou em horário nobre para enfrentar a novela “das oito” da Globo, é perfeitamente assistível em ordem completamente bagunçada. Cada capítulo é um capítulo diferente. E boa.

CSI-blog

Neste sentido, é uma opção bem bizarra. Por outro lado, é uma aposta muito segura.

Porque CSI é a série mais popular do século 21. Ou séries, porque já tem dois subprodutos muito bem sucedidos (CSI: Miami e CSI: Nova York), fora as pilhas de imitações, melhores ou piores.

Já foram produzidos 529 episódios de CSI, e as três séries continuam. Rendeu livros, videogames, todo tipo de badulaque. Sucesso deste tamanho não acontece por acaso.

CSI trata de perícia, de criminalística. Seus heróis não são tiras, são cientistas forenses que trabalham para a polícia.

É claro que eles são bem mais bonitos que seus correspondentes na vida real, com cabelinho na moda, roupinhas bacanas etc.

É claro que os equipamentos utilizados são em grande parte inventados, ou se reais, caríssimos e indisponíveis num DP americano da vida real. É claro que todos os casos são resolvidos pá-pum, da maneira mais emocionante possível.

O verniz high-tech / high-fashion / high-energy é a assinatura do produtor Jerry Bruckheimer. Ele está por trás de muitos sucessos do cinema – Transformers, Piratas do Caribe, Um Tira da Pesada, Bad Boys.

Mas CSI tem um equilíbrio bem interessante entre os instintos financeiros poderosos de Bruckheimer e a mente distorcida do criador do seriado, David Zuiker.

Zuiker é jogador compulsivo, muito inteligente, trabalhólatra, esquisitão. Agora inventou um formato novo de mídia, que batizou Digi-Novel – combinação de livro, seriado e rede social. E aterrorizante. Você pode dar uma fuçada aqui.

Eu assisti muito seriado na vida, claro, mesmo depois de adulto – Arquivo X foi paixonite e é, aliás, uma das duas principais inspirações de CSI.

A outra, pouca gente vai lembrar: fazia parte do primeiro time de seriados exibidos na TV Manchete (uau!). Era Quincy, seriado focado em um legista esquisito, cheio de manias e tal – como Gil Grissom, de CSI.

quincy-blog

Grissom, vivido por Willliam Petersen, é chefe generoso, meio ateu, está ficando surdo, tem uma barriguinha e depois de um tempo deixou crescer uma bela barba.

É herdeiro de Quincy, mas também de Columbo, de Hercule Poirot, e no final de Sherlock Holmes – tipos excêntricos que sempre partem das evidências para construir raciocínios imprevisíveis.

Heróis da ciência, heróis geeks. Bem mais bacanas que os caras que resolvem tudo na porrada. É o anti-Capitão Nascimento.

CSI tem outra coisa bacana: uma heroína esquisita e feinha, coisa impossível de encontrar na TV americana, Sara Sidle. Que encontrará o verdadeiro amor, depois de muitos anos. Com quem eu não conto para não entregar a surpresa.

CSI vai emplacar em termos de audiência? O brasileiro médio quer ver seriado nove horas da noite em vez de mansão na Barra e pagode na favela? Sei lá.

Veja galeria de fotos CSI aqui.

Agora, já que era para um seriado “virar novela”, fico feliz que seja CSI. Superpopmas não superburro. Não sou fiel, não vi nem um quinto dos episódios. Segui a primeira, segunda temporadas, o resto bem de vez em quando.

Desencanei. O tempo passou. E decidi assistir mais filmes e praticamente nada de séries. Dirijo uma revista de cinema, afinal.

Mas se eu estiver trocando de canal e ouvir essa música, paro na hora.

Veja mais:

+ Aqui você encontra tudo sobre CSI: Investigação Criminal

+ Record escala CSI para combater seriado do SBT

+ Todos os blogueiros do R7

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25 janeiro 2010

comentarios-icon31 Comentários »

As enchentes têm culpados – e não é a natureza

Em 2006, o então governador Geraldo Alckmin anunciou o final das enchentes no Rio Tietê. Semana passada, o Tietê – e o Pinheiros, Aricanduva, Tamanduateí e Pirajussara – transbordaram.

Sim, nunca houve janeiro tão chuvoso. Mas não, Ana Lídia e Ana Maria, 8 e 14 anos, não precisavam ter morrido soterradas no barro na quinta-feira passada. Nem a mãe delas, Analice, 36 anos.

Nem elas, nem ninguém. São quantos mortos até agora? 50, só em São Paulo? A cada dia morrem mais alguns. A culpa é da natureza?

Não, a responsabilidade é dos nossos governantes. O que acontece é que a prefeitura e o estado de São Paulo não cumpriram o plano antienchentes da bacia do Tamanduateí, feito em 1998.

Ele previa a construção de 37 piscinões. Só 41% destes estão funcionando, segundo o próprio Daee (Departamento de Águas e Energia Elétrica).

Um dos autores deste plano, o engenheiro Aluísio Canholi, disse à Folha que “os pontos de alagamento principais da marginal Tietê têm diques de proteção, tanques e bombas. Provavelmente estes sistemas não estão funcionando a contento.”

Muitas outras medidas podem ser tomadas para melhorar essa situação. Muita coisa pode se criar. Mas a gente podia começar pelo menos fazendo o que já foi proposto em 1998. Foi falta de dinheiro?

Não. Prefeitura e Estado gastaram bastante dinheiro em outras coisas, nestes doze anos. Na minha opinião, menos importantes.

Como a ponte estaiada sobre o Pinheiros, por exemplo.

Ou zilhões em publicidade, cantando as muitas virtudes dos nossos governantes. Quem governou São Paulo neste período? O estado, sempre o PSDB: Mário Covas, Geraldo Alckmin, José Serra.

A cidade: Celso Pitta, Marta Suplicy, Serra e Gilberto Kassab.

Kassab ouve reclamação dos moradores - Foto por Fernando Pereira/Secom

Em 2009, o programa de infraestrutura hídrica e combate a enchentes do Estado teve orçamento de R$ 252 milhões. Pela proposta protocolada pelo governo de José Serra na Assembleia Legislativa no dia 30 de setembro, o investimento nesse setor deve ficar em R$ 200 milhões em 2010.

São R$ 52 milhões a menos. Você acha que precisamos diminuir ou aumentar a verba para enfrentar as enchentes?

Só lembrando: este ano tem eleição.

Veja mais fotos dos estragos em São Paulo

Veja mais:

+ SP cria auxílio-moradia para afetados pelas chuvas

+ A incompetência criminal de Kassab e a sua

+ Todos os blogueiros do R7

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22 janeiro 2010

comentarios-icon17 Comentários »

O aborto e a lei, segundo uma promotora

A história sobre o aborto – a intromissão de religiosos no assunto, e a covardia do governo sobre o tema – continua rendendo.

Uma amiga aqui do blog, promotora, escreveu o texto abaixo. Pediu para não ser identificada. Ela entende de lei. E convive cotidianamente com injustiças corriqueiras.

estatua-justica-cega-blog

Leia com atenção:

“Uma grávida, maior de 18 anos, provoca aborto em si mesma ou consente que alguém o provoque. É crime, segundo o artigo 124 do Código Penal Brasileiro. A pena mínima prevista no código é de um ano de detenção e a pena máxima pode chegar a três anos de detenção. Isso significa que uma mulher, processada por aborto que provocou ou consentiu, será mesmo condenada e presa? Pouco provável. Pelas seguintes razões:

- quando ocorre um crime, o delegado de polícia instaura inquérito policial para investigar. No caso do aborto, ele é obrigado a colher indícios de que a grávida provocou intencionalmente ou permitiu que alguém realizasse o aborto. Aborto natural, logicamente, não é crime. E nem aborto culposo, na hipótese da grávida imprudente que não se cuidou e abortou. Aborto é crime que deixa vestígios, então, para ser provado, necessário o exame do cadáver do feto.

Geralmente, abortos ocorrem clandestinamente, em casa ou em clínicas ilegais. Ou então, para serem descobertos pela polícia, dependem de notícia dada por médicos ou pessoas próximas da grávida. Essas circunstâncias (necessidade de delação, de preservação do cadáver do feto e até mesmo de apreensão de instrumentos ou medicamentos que indiquem a efetiva intenção de abortar) contribuem para que o número de inquéritos policiais instaurados para apuração de aborto provocado ou com consentimento da gestante sejam reduzidos.

- concluída a investigação, o inquérito é analisado pelo promotor de justiça, que fará a “denúncia”: ou seja, a acusação formal e escrita, dirigida ao juiz, narrando a prática do crime e pedindo a instauração de processo criminal contra a denunciada. Mesmo que, na denúncia, o promotor conclua a acusação pedindo a futura condenação da denunciada, esse pedido não o vincula até o final do processo. Se, futuramente, colhidas as provas, o promotor se convencer da inocência da ré, ou de que não há provas suficientes para considerá-la culpada, pode pedir sua absolvição.

- no caso de uma mulher ser denunciada (acusada) por aborto provocado ou que consentiu, pode ser que o processo não seja julgado. Isso porque existe uma lei processual, a Lei n. 9099/95, que dispõe que, nos crimes nos quais a pena mínima não for superior a um ano de prisão, o promotor de justiça pode oferecer para a pessoa acusada uma proposta de suspensão do processo. O aborto entra nessa possibilidade. Mas a ré não pode estar sendo processada pela prática de outro crime, nem ter sido condenada anteriormente por crime.

Se a acusada aceitar a proposta do promotor, o processo ficará suspenso por dois anos. Nesse tempo, ela terá que comparecer no fórum uma vez por mês, para assinar uma ficha no cartório judicial. Também só vai poder sair da cidade onde corre o processo para viajar, com autorização do juiz. Terminados os dois anos, se ela cumpriu as condições e não cometeu outros crimes, o processo é extinto e arquivado, sem sentença de julgamento, ou seja, sem a acusada ter sido julgada culpada ou inocente.

- se a acusada não tiver direito à proposta de suspensão (por exemplo: ela está sendo processada por outro crime. “Processada” é diferente de “investigada” em inquérito policial. Apenas denúncia, que significa acusação, recebida por um juiz gera processo) ou se não a aceitar, o processo se inicia e serão colhidas as provas orais em audiência judicial, com juntada de documentos, laudos no processo etc. Só que não será o juiz que irá julgar a acusada de aborto.

Aborto, segundo o Código Penal, é crime doloso (intencional) contra a vida. A Constituição Federal diz que os crimes dolosos contra a vida (homicídio, infanticídio, aborto, instigação a suicídio) serão obrigatoriamente julgados pelo júri popular.

Então, sete pessoas da sociedade, os jurados, vão decidir se uma acusada levada a julgamento será condenada ou absolvida. O veredicto se dará pela maioria de votos, com os jurados depositando, em uma urna, cédulas com a palavra “sim”, para condenação, ou “não”, para absolvição. A votação é secreta, cada jurado não pode revelar seu voto e nem se comunicar com os demais jurados. Sendo a votação secreta, os jurados votam conforme sua consciência e convicção, baseados nas provas expostas pela acusação e defesa.

Não podem justificar oralmente ou por escrito o porquê de seu voto. Se a maioria de votos concluir pela condenação, o juiz se limitará a calcular a pena a ser aplicada para a condenada. Se primária e de bons antecedentes, provavelmente receberá pena mínima, um ano de detenção.

martelo

Nessas condições, não será presa, pois:

a) o regime de cumprimento de pena, para penas de até quatro anos de prisão, é o aberto, segundo o Código Penal,

b) terá direito à suspensão condicional da pena (com condições de cumprimento semelhantes à da suspensão condicional do processo). Assim, ainda que receba pena máxima, de três anos, não será presa. Apenas se for reincidente em crime doloso não terá direito à suspensão da pena e terá que cumpri-la em regime semi-aberto.

Julgamentos de abortos provocados ou consentidos pela gestante são bem incomuns no dia a dia forense, em razão do número reduzido de inquéritos instaurados para apurar esse tipo de crime e da possibilidade de suspensão do processo. Condenações são ainda mais raras, pois os jurados decidem de acordo com suas convicções, sem ter que revelar o voto.

Efetiva prisão não acontece, pois apenas crimes apenados com reclusão resultam em cumprimento de pena em regime fechado. Aborto provocado ou consentido pela gestante é apenado com detenção. A pena dá direito a regime aberto para a não reincidente em crime doloso.

Concluindo: aborto provocado/consentido dificilmente gera condenação e punição na prática. O processo acaba sendo mera formalidade. A fraude é facilitada: mulheres grávidas podem mentir na DP dizendo que foram estupradas, conseguir um BO falso e abortar na legalidade e na facilidade. Se é assim, mais um motivo para descriminalizar, não?

E é isso. Agora, quer saber minha opinião pessoal sobre o assunto? Sou a favor da descriminalização.

Além da parte criminal, eu também faço a parte de adolescentes infratores e vejo que, na grande maioria dos casos, os meninos e meninas desandam para o crime porque têm pais omissos, desinteressados, despreparados, bananas – bom, isso quando existe um pai. Geralmente, é só a mãe, cheia de filhos.

Mas não fui eu que fiz as leis, nem tenho o poder de mudá-las. Enquanto for crime, é meu dever fazer as acusações contra quem abortou, senão, quem comete crime sou eu. Mas não é pelo fato do aborto ser crime que existem mulheres que deixam de abortar, com medo de punição. Se há mulher pobre que quer abortar e não o faz, é por medo do tipo de atendimento médico que será oferecido.

E também não acho que a descriminalização não acontecerá por causa de medo da reação da Igreja ou troço que o valha. Isso é desculpa, pois exigiria um belo aumento dos gastos do governo na área da saúde. Isso sem falar no despreparo dos hospitais e médicos.

Nas últimas décadas, houve no país a proliferação de faculdades de quinta categoria, incluindo medicina.

Se inquérito policial de autoaborto é algo incomum, inquérito para apurar erro médico, geralmente em hospitais públicos, é bem corriqueiro. Já pensou a quantidade de açougueiros despreparados trabalhando indevidamente no serviço público? E curetagem é uma cirurgia muito delicada, já que o útero é raspado. Se perfurar, é tchau.

Mesmo descriminalizando, muitas mulheres pobres continuariam a morrer, por falta de investimento do governo e péssima formação de médicos”.

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21 janeiro 2010

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Quanto vale sua honestidade?

Um amigo sempre dizia que quer muito ser corrupto, mas ninguém oferece nada para gente honesta. E começar por baixo, se vendendo por pouco, é muito desagradável e desanimador.

Se vender, no caso, não é só na linha grana na cueca, desses Arrudas e companhia. Existem muitas maneiras de você, hmm, digamos, “alargar seus horizontes” e afrouxar um tanto os princípios, quando o dinheiro é bom.

Cada um cai do bonde como quer, e cada um sabe até onde pode ir e continuar dormindo bem à noite. Não sou juiz. Mas sei reconhecer um cara de princípios quando encontro um.

Frank Gehry é um homem de princípios.

Ele é certamente o mais famoso arquiteto da nossa época. Tipo, ele aparece nos Simpsons e em campanhas da Apple, e ganhou um documentário dirigido pelo premiado Sidney Pollack, Sketches of Frank Gehry.

frank-gehry-by-the-simpsons-ok

É responsável por prédios famosos como o Museu Guggeinheim em Bilbao e o Museu da Música de Seattle. Causa polêmica. Há quem diga que sempre constrói o mesmo prédio, que as obras são faraônicas, não levam em consideração necessidades humanas etc. Ninguém negará que é único.

Guggenheim

Eu só entrei em um prédio projetado por Gehry, o Walt Disney Concert Hall, no centro de Los Angeles. Foi para um evento da produtora de games Square-Enix, em 2005. É como entrar em uma nave espacial.

Disney_Concert_Hall

Mas meu favorito é esse, em Praga, a “casa dançante”.

Prag

Gehry tem 80 anos. Está quase encerrando a carreira. Seu grande projeto nesta fase: ele foi escolhido para construir o Museu da Tolerância, em Jerusalém, Israel. Um megaprojeto de 250 milhões de dólares. Importante: o canadense Gehry nasceu Goldberg, judeu de origem polonesa, e mudou o nome depois de adulto.

Frank acaba de se retirar do projeto, após anos de trabalho. Não deu muita explicação, fora dizer que “é uma situação política sensível.” Eufemismo do ano.

O projeto vinha sendo bombardeado de todos os lados, inclusive por rabinos ortodoxos, políticos israelenses de esquerda e direita, arquitetos do mundo todo. Por que? Porque o lugar escolhido foi em um terreno que serve faz 800 anos como cemitério muçulmano.

Está além do desrespeito, claro. O projeto é do Simon Wiesenthal Center, batizado em homenagem ao célebre caçador de nazistas. O Museu da Tolerância de Israel seria o segundo – já existe um em Los Angeles. O plano para construção do Museu da Tolerância em Jerusalém data de 2004, e muita água correu desde então.

O projeto arquitetônico desenvolvido por Gehry e equipe está entre o sensacional e o sensacionalista, aço, pedra, vidro colorido para todo lado. Os responsáveis tocam o projeto sem Gehry e já informaram que vão selecionar outro arquiteto, e a polêmica continua. Leia aqui.

Gehry poderia ter coroado a carreira com talvez sua construção mais ambiciosa; embolsado uma tonelada de dinheiro; e ainda justificado, “se eu não construo, outro vai construir”.

Ele disse não ao Museu da Tolerância assim que a polêmica estourou? Não.

Foi empurrando um pouco com a barriga. É humano, como você e eu. Na hora H, tomou a decisão que sua consciência exigia. Foi honesto. Não é pouco.

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