19 outubro 2009
Gibi não é pra criança
Gibi não é pra criança. Gibi não é pra criança. Gibi não é pra criança. Gibi não é pra criança. Gibi não é pra criança. Gibi não é pra criança.
É inacreditável que em 2009 eu precise repetir isso quinhentas vezes para ver se entra na cabeça desse povo burro.
Gibi é para todo mundo. Como qualquer livro. É uma forma de expressão. Uma arte, se você quiser.
Tem gente que nem chama de gibi ou de HQ, chama de “arte sequencial” ou “romance gráfico”, graphic novel. Pode ser tão sublime ou idiota como, digamos, um filme.
Pode ser pra nenê ou pra gente muito madura, como uma peça de teatro.
Antigamente, a maioria era apropriada para crianças pequenas. Hoje, a maioria não é.
Vai na banca conferir. Tem uns 200 títulos diferentes lá. Nem 20% disso apropriados para criança.
Como cinema. Ou literatura. Ou peças de teatro. Tá claro?
Agora, se você for nesse instante numa grande livraria brasileira, vai encontrar quadrinhos para criança e quadrinhos eróticos e quadrinhos políticos e quadrinhos de todo jeito, tema e formato todos juntos numa estante marcada “Quadrinhos.” Se marcar, vizinha da estante de “Infantis”.
Não tem nenhum sentido juntar Guido Crepax e Alan Moore e Allan Sieber e Osamu Tezuka e Flávio Colin e Wander Antunes e Hugo Pratt e Marcelo Gaú e Bryan Talbot e Takehiro Inoue na mesma estante.
Sei porque publiquei todos eles, na Conrad ou na Pixel.
Qualquer adulto pode e deve ler Dragon Ball ou Tio Patinhas. Como pode assistir Wall-E. O contrário não é verdadeiro.
Meu filho não pode assistir Apocalypse Now, que é um dos melhores filmes que eu já vi. Ele tem cinco anos. É muito pesado. Não é hora.
Também não pode assistir O Triunfo da Vontade, que não tem palavrão nem mulher pelada. Porque é propaganda nazista. Tomás não está pronto.
Um dia desses, uma mãe vai dar o Buda de Ozamu Tesuka – meu mangá predileto de todos os tempos, terno e inteligente – para seu filhinho de sete anos.
E quando ver que o gibi, além de uma mensagem inesquecível, tem moças com peito de fora, guerra e morte e sangue, vai processar a livraria, a editora, o autor etc.
E um bando de políticos demagogos vão pegar uma carona para posar de defensor da moral.
Aliás, liberdade de expressão é sempre a liberdade de expressarem o que eu não gosto, não suporto, não aturo, acho errado e de mau gosto.
Quem não entendeu isso não sabe o que é democracia. O que significa que 90% dos brasileiros não sabe o que é democracia. E esses caras têm filhos na escola, frequentam bancas e livrarias etc.
Eu preferia que eles fossem desintegrados por raios atômicos marcianos – seria um país mais agradável – mas não tenho esperança que isso vá acontecer tão cedo.
Às vezes eu acho que a indústria de HQ brasileira precisa de um sistema de classificação, como os games e os filmes. É triste, perigoso e um tanto emburrecedor, mas talvez seja o jeito.
Não na linha do Comics Code americano, tesconjuro; talvez dois ratings, sempre sugeridos pelo próprio editor. Para Todas as Idades, Sugerido para Maiores de 12 anos. E tá bom.
Acima de 13 qualquer um deveria estar livre para ler o que bem entender, de Sade a Shakespeare; e ver qualquer coisa, inclusive pornografia e terror hardcore; e de fato os teens já fazem isso, porque quem tem acesso à internet tem acesso a tudo.
E contra o avanço da tecnologia, leis obsoletas nada podem.










19/10/2009 às 14:34
Texto excelente, Forastieri. Concordo em gênero, número e grau. O Brasil precisa urgentemente acordar para a Arte Sequencial.
19/10/2009 às 14:36
Lembro-me agora de algumas entrevistas que dei para emissoras de TV daqui de Natal. Em algumas delas minha fala foi cortada justo quando eu apontava esse tópico. Os Quadrinhos hoje estão mais adultos do que nunca, até mesmo os de super-herois.
19/10/2009 às 15:13
É deveras complicado esse troço de indicar gibi pra criança. Meu amor é a Vertigo.
19/10/2009 às 15:47
Otimo texto e colocacao mais do que acertada.
19/10/2009 às 15:53
repetir e repetir e repetir o óbvio até as pessoas entenderem. é cansativo, mas assim é a vida.
19/10/2009 às 15:57
na livraria onde trabalho temos uma briga eterna com o pessoal do infantil. sempre pego coisa que deveria estar em quadrinhos por lá, mas não deixam mudar porque acham que assim vende mais. e não é só com quadrinhos, não. outro dia achei um dvd de family guy no setor.
19/10/2009 às 16:05
Caceta! O “Sheiquiespire” postou aqui!
19/10/2009 às 16:06
Adorei a matéria mas prefiro a segunda frase: Gibi é para todo mundo. Li livros e gibi, arte sequencial, banda desenhada, comics, fumetti, tirinha, quadrinhos, hq, desde muito pequeno, quando entrei na pré-escola já lia e escrevia. E mesmo em relação aos temas, porque as crianças são expostas as guerras e as armas muito mais cedo que à sexualidade e a sociedade acha isso normal? Vai lá ver o Darth Vader explodir um planeta inteiro, mas não vá ver Hair que eles falam de drogas e sexo! Eu subvertia isso no fim dos 70 inicio dos 80. E se Beatles me ajudaram no inglês, quadrinhos eróticos me introduziram na sacanagem francesa e italiana!
19/10/2009 às 16:08
Só um complemento:
Como um padre faz para catequizar uma criança que já leu Mafalda e Asterix, entre outros? Não faz!
19/10/2009 às 16:11
Quem deve decidir se este ou aquele quadrinho é para o seu filho são os pais. Você olha a capa de um quadrinho e vê animais fofinhos e acha que é pro seu filho, quando sabemos que nem sempre isso é realmente verdade. Crumb já bagunçou com isso em Fritz The Cat. Enfim, antes de indicar este ou aquele quadrinho para uma criança, leia-o antes. Se isso acontecesse sempre não teríamos problemas como aqueles quadrinhos do Eisner e aquele outro nacional que foi massacrado pela opinião pública por conta de um erro do Ministério da Educação.
19/10/2009 às 16:22
Sobre o que a criança deve ver ou não, isso deve ficar sobre critério exclusivo dos pais, o estado e as editoras podem no máximo recomendar. Se os pais não forem responsáveis pelo que os filhos vêem, então tem algo de muito mais grave acontecendo! Meu filho não tinha mais 5 mas ainda não tinha 13 quando viu Apocalypse Now, tinha 5 quando mergulhou em Fernando de Noronha perto de um filhote de tubarão lixa, e 6 quando viu KingKong original e ficou com medo do PB até ver o gorila e achar “patético”! Tinha 13 quando viu American History X…
19/10/2009 às 17:57
Muito bom seu texto…sábado estava na Livraria Cultura, na parte de gibis, e não tinha nada que pudesse ser acessível aos pimpolhos…Acho que eles deveriam selecionar melhor…tava tudo livre pra gente xeretar (bom pros adultos e doidos como eu)…inclusive o maravilhoso BUDA, que eu comprei há algumas semanas….MARAVILHOSO!
19/10/2009 às 19:26
Clap! Clap! Clap! Clap!
Grande Forasta!
Assino embaixo…
Mas aí, essas tarjas indicativas já não têm mais o mesmo apelo de antes. Portanto, são uma merda e mais uma medida para arbitrariedades familiares.
Por essas e outras, fico imensamente feliz de pensar que meu progenitor teve culhão de me criar livre. Esculhambar também é educar…
abs
19/10/2009 às 21:10
Ah, não fossem as revistinhas e o seriado da Mulher-Maravilha, desde meus cinco/seis aninhos, não teria escolhido minha profissão. Desde pequena acho bonito mulher encanando bandido.
19/10/2009 às 21:16
Confesso que nunca li gibi sem ser os do “Cebolinha”, mas estou tentado a ir dar uma volta ali na Livraria Cultura e comprar alguns.
Essa coisa de tentar proteger os adolescentes é uma burrice mesmo. Por exemplo, colocar “Bastardos inglórios” como somente para maiores de 18.
Eu vou conseguir baixar de qualquer jeito na internet. De que adianta proibir? Aff…
http://blog-andamdizendo.blogspot.com/
19/10/2009 às 22:21
“Eu preferia que eles fossem desintegrados por raios atômicos marcianos – seria um país mais agradável – mas não tenho esperança que isso vá acontecer tão cedo.” Achei isso lindo!
belo texto!
19/10/2009 às 22:54
Curioso é que, por acaso, essa semana fui na Comix (só depois que vi seu post, se não, teria ido no dia que tu tava lá) para comprar uma daquelas HQ jornalísticas.
Não encontrei, mas acabei comprando um outro, contando a história de uma menina na Costa do Marfim (Aya de Youpougon, de Marguerite Abouet e Clément Oubrerie).
Aprendi mais do que em qualquer veículo períodico(considerando que sou jornalista e a maioria das coisas que aprendo vem destes lugares).
Depois de grande, além da Mônica e do Pato Donald, aprendi a gostar de quadrinhos. Sem querer, pensamos igual (não com todos os mesmos argumentos, mas temos a mesma linha).
19/10/2009 às 23:41
É verdade!
E eu adoro gibi, que não é coisa de criança
Abraço
20/10/2009 às 02:56
Além de ser de gibis eu sou mais fã deste aqui
http://www.tokusatsu.com.br
20/10/2009 às 10:06
Desde que me dou por gente e que compreendo as mazelas coginitivas da vida leio quadrinhos. Se um dia a curiosidade foi atiçada a responsabilidade é da “arte sequencial”. Mitologia, drama, moral, tridimensionalidade, o ato de escrever. Enfim o HQ foi o transporte primal para o acesso aos demais conceitos: filosofia, hermetismmo, antropologia e outros mais. Indfelizmente somos uma nação de iletrados. Nem outdoor tem vez. Se novela tivesse legenda era zero audiência. Enquanto brasileiros avançam a passos lentos no mercado exterior o Brasil expulsa os que ainda persistem no limbo. Mais uma vez vossas palavras atingem com qualidade devastadora o cerne da questão!
20/10/2009 às 10:17
Eu acho que você não entende nada de quadrinhos.
Pô, como você vem falar disso aqui?
Justo neste país que tem grande tradição cultural.
Aqui, onde Machado de Assis e Roberto Marinho são separados por um chá ou outro da ABL.
Neste lugar onde todo mundo sabe quem foi Policarpo Quaresma.
Num país que tem ídolos e políticos de inestimável contribuição teórica.
Quem curte quadrinhos é tudo idiota.
Gosta de heróis de papel.
Bom mesmo mesmo são nossos ídolos de verdade: Senna, Carla Peres, Collor, Kaká, Ronaldinhos, Ronaldinhas (uma delas virou até artista de cinema), Cicarelli, Datena, Xuxa, Sassá Mutema, Eliana Tranchesi (a Robin Hood às avessas), etc…
Você não entende nada de heróis.
Você não entende nada de arte narrativa, de enredo.
Você nem sabe escrever direito pra entender a “arte”.
Em todo caso, como sou bonzinho e tenho escudo anti-raios-atômicos-marcianos, deixo minhas saudosas lembranças,
Ps: texto extraído de mensagem do espírito Péricles, (aquele do Amigo da Onça) psicografado por Chico Xavier…
20/10/2009 às 11:25
Tenho esse pensamento desde meus 16 anos, hoje com quase 28 é vergonhoso ver que a mente da esmagadora maioria ainda vê quadrinhos de forma preconceituosa, rotulada.
20/10/2009 às 12:08
A meu ver tudo quanto é censura é um chute no saco. Você proíbe uma criança de não ler tal gibi, mas aí se o cara tem tv por assinatura, os desenhos que passam na fox, fx e outros, são nitidamente para adultos, no entanto a molecada tá la vendo. Pode não entender nada, mas tá la assistindo. Como proibir a criança de ver? Será pior porque aí elas vão procurar em outras “fontes”, como internet, coleguinhas, etc… Ora, o mesmo se aplica aos gibis, não vê em casa, vai ver em outro lugar. Portanto, sem essa de censura. Já vai aprendendo desde cedo, o que resta é orientar, fazer a cabeça da criança para o que é bom e para o que é porcaria. Tem que ir passando os conceitos básicos da vida. Aprendendo o que é certo e o que é errado. Caso contrário, quase vira adolescente, aí a coisa engrossa. Segura se puder.
20/10/2009 às 12:13
Corrigindo: em vez de quase entenda-se QUANDO
20/10/2009 às 12:17
André, sabe uma coisa que eu acho?
Se você mostrasse Apocalypse Now ou O Triunfo da Vontade para o seu filho de cinco anos, provavelmente ele não prestaria atenção, dormiria, ou, caso você o segurasse e o forçasse a assistir, começaria a chorar – não porque os filmes sejam fortes, mas por serem chatos (para uma criança, claro).
Sendo assim, talvez não precisasse haver nenhum tipo de censura.
20/10/2009 às 12:46
Forasta, meu caro, o duro não é o pouco caso e o ar blasé com que os doutores tratam os quadrinhos, mas a forma como eles se fecham não admitindo nem a possibilidade de leva-lo em consideração. Perdi sua palestra na sexta já que só fui na Festcomix no sábado… 1 abraço!
20/10/2009 às 14:55
lembro desse texto do antigo blog, acho que foi ai que comecei a acompanhar todo dia. lembrei dele algumas semanas atras qndo estava em uma livraria e nao achava mais os quadrinhos, foi quando resolvi olhar pro lado infantil e la estavam…e na parte mais alta da prateleira estava escancaradamente “Lost Girls” do Sr. Moore, mais infantil impossível!
20/10/2009 às 21:04
Também concordo que as HQs são um tipo de “midia” ou “forma de expressão” que pode ser usada para qualquer tipo de genero. No entanto, depois que fui pai, notei várias coisas relacionadas ao crescimento das crianças. Notei que uma criança se interessa IMEDIATAMENTE por tudo que é desenhado. Se voce tiver uma foto de um leão e um desenho de um leão, a criança irá se interessar pelo desenho. O interesse das crianças por tudo o que é desenhado (incluindo HQs), faz com que alguns pais desavisados (e aí falo de gerações de pais) associem esse tipo de desejo a crianças (e apenas a elas). Isso sem falar, obviamente, que no mercado americano, as HQs que formaram a base da industria, eram voltadas ao publico infanto-juvenil. Apesar do seu texto “mimimi”, creio que ainda levará tempo para as HQs na américa (nas três) se torne uma mídia “livre”.
21/10/2009 às 01:39
Forastieri para presidente! =B
21/10/2009 às 10:32
Concordo em gênero, número e grau Forastieri! É isso mesmo. Gibi é arte. E como tal serve para todas as idades. Quando o caldo entorna, e temos uma ditaduta, é o cartum – uma das formas possíveis de HQ-, que consegue passar alguma mensagem. Porque é sútil. E os milicos, ou seja quem for o ditador de ocasião, não consegue pegar a mensagem que exige inteligência. Justamente, o que falta para os ditadores. O Pasquim não me deixa mentir, certo? E o Hebdo, com certeza, não era para crianças. Digo tranquilamente: frequento a Gibiteca Henfil, do CCSP, e leio tudo, da Mônica ao próprio Henfil. E não sou mais uma criança. E muitos dos frequentadores também não são…
Ainda bem.
21/10/2009 às 17:58
Na escola onde meu filho estuda, gibis são utilizados na alfabetização. As primeiras palavras que meu filho leu foram em gibis da Monica, Tio Patinhas e cia. E na biblioteca da escola é possível alugar gibis também… semana passada ele apareceu com um Asterix. Não resisti e reli.
22/10/2009 às 02:02
É isso aí André, tô contigo.
Até hoje não esqueço o quanto fui apaixonada por Maga Patológica e Madame Mim, adoraaaavvvaaaa….
23/10/2009 às 11:41
Você foi preciso ao levantar a questão das prateleiras das livrarias. É por esta razão que eu achei um tremendo absurdo darem um prêmio HQ Mix para a livraria Fnac. Como assim?!? Justamente na Fnac você encontra misturados na mesma prateleira Manara, Radical Chic, Incal, Turma da Mônica, Dragon Ball e Batman. E sim, no mesmo corredor, ao lado da parte de “literatura juvenil”.
05/11/2009 às 22:05
Linquei o texto no http://www.cabruuum.blogspot.com
Abraços!
06/11/2009 às 16:33
Excelente texto, caro Forastieri!
Como quadrinhista e ilustradora, fico me perguntando se essa certa aversão ao desenho como meio de comunicação e narração não é algo especialmente arraigado no Ocidente. No Japão, por exemplo, desenhos e ‘figurinhas’, ‘bonequinhos’ são usados em cartazes, revistas e jornais dirigidos a todas as idades, sem essa de ’se tem figurinha, é pra criança’. Não é de se surpreender que o mangá tenha nascido nessa cultura que não despreza o desenho.
Aqui, ler livros ’sem figuras’ é sinal de entrada no mundo adulto, enquanto que gibi e livro ilustrado é coisa de criança!