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27 outubro 2009

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A educação ideal: boa, grátis e sem professor por perto (mas sem diploma também)

Quando eu estava na faculdade, achava uma chatice ter que ficar fazendo trabalhos idiotas, resumos, “fichamentos” de textos. Ano após ano, os professores pediam as mesmas coisas – ler O Manifesto Comunista, um livrinho da Marilena Chauí, outro texto lá do Walter Benjamin.

Propus só meio humoristicamente que os alunos montassem um banco de dados, com cópias de todos os trabalhos entregues nos quatro anos de jornalismo da Escola de Comunicações e Artes, Universidade de São Paulo.

A ideia era que no ano seguinte, ninguém precisasse fazer mais porcaria nenhuma. Bastava copiar os trabalhos que tiveram as melhores notas.

Os professores jamais iriam perceber. Se não tinham energia para mudar o currículo ano após ano, por que iam ter energia para ler nossos trabalhos com atenção?

Meus colegas não entenderam que não era piada. Isso foi em 1983.

Em 2005, Neery Paharia, ex-consultora na McKinsey, ex-empregada da Creative Commons, fundou uma coisa chamada AcaWiki, uma compilação de resumos de textos acadêmicos, grátis e criada  coletivamente.

AS LICENÇAS CREATIVE COMMONS

Faz sentido. A Creative Commons é uma ONG dedicada a reformar o sistema atual de propriedade intelectual. Oferece a criadores de conteúdo a possibilidade de registrar suas obras de maneira diferente das que a lei prevê.

Em vez de “todos os direitos reservados”, geralmente uma licença Creative Commons prevê “alguns direitos reservados”.

Eu acho o Creative Commons muito interessante, e já fundei dois sites de colaboração coletiva que funcionam mais ou menos nesta regras.

São o BIS, blog de música que está dentro da MTV.com.br, e o MOVIE, site irmão da nova revista de cinema da Tambor.

A regra 1 no BIS e no MOVIE é: mande o que quiser, publicamos o que gostamos, damos crédito (e link para seu blog ou site ou post original, se houver).

A regra 2 é: você pode pegar qualquer coisa que estiver dentro do BIS e do MOVIE e publicar onde bem entender, dando crédito e link.

Claro que se você quiser pegar este texto que estou escrevendo neste segundo e colocar no seu blog, não tenho como controlar. Mas se deres o crédito e o link, agradeço. Aproveitando, a reportagem da Fast Company que inspirou este post está aqui.

Agora Paharia começou a Peer2Peer University. Estudantes usam o site para se encontrar, agendar classes, estudar conjuntamente, ensinar uns aos outros. Um “facilitador” voluntário supervisiona o andamento de cada curso e mantém a coisa andando.

Hoje, a P2P University tem dez cursos pilotos e já recebeu um investimento inicial de setenta mil dólares da Hewlett Foundation. Não sou só eu que tenho birra com escola.

Tem gente mais inteligente que eu dizendo que as universidades vão pelo caminho das lojas de disco, das gravadoras e dos jornais: pra lama. E tem gente grande apostando dinheiro alto nisso.

“Por que meu filho não pode estudar robótica em uma faculdade, álgebra em outra e direito numa terceira? Por que não podemos organizar 130 disciplinas diferentes, em escolas diferentes, e dizer que isso justifica um diploma?”

Foi mais ou menos essa a pergunta que o professor David Wiley fez. E que não quer calar. Wiley não é mole. Teve uma visão: depois do open source, o open content.

Co-fundou uma escola grátis, pública e online, que usa conteúdo livre (e grátis) e permite que os estudantes se formem na high school (equivalente deles do médio), estudando de casa.

É sócio de uma nova empresa chamada Flat World Knowledge, que encomenda textos acadêmicos e didáticos para professores e os disponibiliza no site. Eles são grátis para leitura online, US$ 19.95 para download e US$ 29.95 por uma cópia impressa.

A empresa acaba de receber um investimento de oito milhões de dólares. Ou seja: tem grana alta apostando em sistemas alternativos. Se você conhece outras experiências diferentes nessa linha, por favor me avisa.

QUER APRENDER DE GRAÇA?

E as universidades?

Começam a correr atrás do prejuízo. O prestigioso Massachussets Institute of Technology, MIT, já coloca praticamente todo conteúdo de seus cursos disponível online. Apostilas, textos, testes, e bastante áudio e vídeo.

De graça. É o OpenCourseWare. Você pode sair agora deste blog e acessar um curso do que você quiser, preparado por alguns dos maiores gênios do planeta, prêmios Nobel etc. É aqui.

Sabe quantos cursos tem? Mil e novecentos. Só falas português? Não tem problema. Tá cheio de curso em português aqui.

Agora, se você quiser receber um diploma do MIT em qualquer desses cursos – um degree, como dizem lá os gringos – tem que passar por uma peneira desgraçada, mudar para Boston e investir pelo menos uns US$ 200 mil.

Isso faz algum sentido para você? Será que não deveria haver mais graus de cinza entre “formado” e “não-formado”?

Citei o MIT porque é famoso. Mas Yale, Notre Dame, e muitas outras instituições estão indo nessa direção. Várias brasileiras.

Veja a lista dos participantes do consórcio OpenCourseWare aqui.

E se você não está encontrando o curso que quer, pode procurar aqui:

Por enquanto, você não ganha um diploma quando faz um curso desses. Porque, claro, não interessa para as universidades, nem pagas nem públicas.

Mas as coisas mudam e mais rápido do que a gente imagina. Em um país como o Brasil, em que 85% dos jovens de 20 a 25 anos não frequentam faculdade, não é nem previsível: é inevitável.

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26 Comentários para “A educação ideal: boa, grátis e sem professor por perto (mas sem diploma também)”

  1. Larry Redon disse:

    No Brasil mesmo as pessoas que se capacitam não tem o direito de usar o diploma. Vejamos os exemplo do Estado de São Paulo, onde o governo promete uma prova classificatória para que o professor ganhem mais pontos para concorrer com outros: o Estado não aceita o curso de Pós-graduação lato-sensu, nem os de capacitações para aumentar a pontuação do professor, ou seja, os professores ficam desestimulados, deixando de se capacitar, pois diplomas não foram feitos para ficar apenas na parede. Outro critério usado pelo estado é o tempo de serviço para alavancar a pontuação do professor, entretanto, o governo exclui os professores que vem de outros estados com sua pontuação, aceitando apenas a pontuação de São Paulo. Este assunto merecia uma reportagem especial do R7, neste momento que vemos apostilas sendo jogadas nos lixos,prova do Enem roubadas e a notícia de que professores não se atualizam…será que o estado já pesquisou quantos professores estão se capacitando? Não era a hora do Estado incluir como pontuação o currílo do professor?

  2. paulo silveira disse:

    kralhyu fiquei totalmente sem alibi pra continuar no buteco jogando domino.
    muito legal.

  3. Gustavo disse:

    Putz, sempre leio seu blog mas nunca comento, dessa vez não teve como. Parabéns, excelente post, excelente material muito bom mesmo, d++.

  4. Cesar Alves disse:

    Cara vc é demais, resolvi ler seu blog qndo vc escreveu sobre Nerd, daí em diante leio todos, já encomendei o “Retalhos” pra presentiar minha filha de 13 anos, li tbem algumas edições da MAD, agora vc me vem com mais essa dica, Parabéns !!!

  5. Edivaldo A.S. Júnior disse:

    Muito interessante.
    É incrível ouvirmos o discurso de que “o conhecimento deve ser compartilhado”, que é tão vazio quanto a conta bancária de tantos que não podem pagar por uma faculdade, e não vermos nada para mudar essa realidade.
    Agora estamos vendo, e isso é ótimo: estamos saindo do discurso para a prática.
    Parabéns ao R7 e ao André Forastieri pela brilhante reportagem.
    “O conhecimento da Verdade produz verdadeira liberdade.”

  6. Luxorum disse:

    Poisé… mas pra encarar um curso assim “livre” é necessário muita disciplina e alguns pré-requisitos e ambos só conseguimos na infeliz e desprezada sala de aula.
    Convenhamos, queridos, hoje só não estuda quem não quer e se a qualidade esta baixa, culpa dos próprios alunos que fazem as aulas serem niveladas lá no chão. O professor nem tem culpa, não adianta montar uma mega aula de qualidade se o infeliz não sabe nem ler direito; então como ter pré-requisito para levar adiante um curso OpenCourseWare no MIT?
    Esse tipo de curso só funciona num grupo pequeno que quer adquirir o conhecimento em si e não esta correndo atrás de um diploma que o qualifique no mercado.
    A vida é dura ;)

  7. Thales disse:

    Sensacional!

    Porém vivemos em um país que a necessidade de diploma é algo que pode mudar o rumo de uma vida. Hoje escutamos muito que sem diploma não chegamos a lugar nenhum. Sou estudante de jornalismo e vejo que a grande maioria dos estudantes não estão muito interessados nos estudos, imagina se deixasse de existir a obrigação do estudo?!
    Creio que para se adotar estes métodos de estudo, antes seria necessário conscientizar a todos da importância de se aprender algo, pois aprendizado nunca é demais. Talvez leve 30, 40 anos para conscientizar uma geração inteira, porém é necessário dar o primeiro passo. Parabéns André por compartilhar sites de universidades tão importantes que já adotam este método. Sem dúvida, você já está dando o primeiro passo para a conscientização das pessoas.

  8. Marcelo Almeida disse:

    Faz tempo que educação é uma grande palhaçada por parte de governos, pedagogos, professores e alunos neste país.
    Diploma é uma espécie de certificado de “pau-mandado”. Obedeceu o professor, ganha nota boa. Se fizer muita pergunta, tome marcação por parte do professor, tome recuperação e nota baixa.
    Arrumei algumas encrencas na facul por me negar a fazer certas coisas. Eu sempre me nego a fazer coisas idiotas e repetidas. Não tenho paciência pra isso. Não faz sentido algum aceitar as baboseiras dos professores e manter-se quieto.
    A escola é um verdadeiro atraso da informação hoje em dia.
    O grande problema é que o diploma virou refúgio de idiota. Através de um mero pedaço de papel pode-se “anular” a incompetência, a estupidez, a idiotice de alguém. Algo como dar um título de “nobre” a um jegue ou nomear um “cavalo” para senador.
    E como no Brasil a picaretagem é tudo, entonces…
    Ps: falando no Movie, eu te mandei um e-mail sobre o mesmo lá. Dá uma conferida. Tô esperando a resposta.

  9. paulo silveira disse:

    Ha contronversias,”o cara” nao sagrou-se imperador de pindorama sem nem ler jornal,apenasmente dominando a arte do conchavo com maestria e um tsuname de sorte?
    Agora começou ficar contrariado com normas e tecnicos,essa gente mesquinha inimiga da grandeza brasilinica.

  10. Luxorum disse:

    Só pra lembrar: Na vida só existem duas certezas, uma é que todos vamos morrer e a outra é que ninguém passa pela vida sem ter ido a escola ou tido um bom professor.
    Educação é coisa séria, são pouquissímos os pais que conseguem alfabetizar o filho, por isso que temos a escola.
    Facinho jogar pedra depois de alfabetizado… Agora fazer sua parte dentro da sociedade exigindo melhorias na educação, nem pensar né?
    Ô classe média!

  11. paulo silveira disse:

    sociedade,to afins,quanto eu levo nessa?
    e vamu po fogo nessa classe media fedida que pensa da trabalho.

  12. William disse:

    Dei uma olhada no curso Music & Theater Arts:

    “A meta deste curso é a prática: interrogar, tornar explícito e desse modo desenvolver poderosas intuições musicais que estão no trabalho, enquanto você percebe a música ao seu redor. Considerando, questionaremos como este conhecimento se desenvolve de forma usual e extraordinária.”

    Será que é o Brian Eno quem conduz? Tô nessa, maluco.

  13. Cassiano disse:

    Certas coisas a gente só aprende frequentando escola mesmo. Ninguém que junte coisa com coisa se trataria com um dentista autodidata. Ensino fundamental também, o dia em que inventarem algo melhor que a escola, beleza. Fora esses casos, o que conta é a curiosidade pessoal, muitas vezes autodidata. Num mundo ideal, escola e autodidatismo seriam complementares, não excludentes. Mas, sei lá o que estou dizendo, nosso imperador, como observou o paulo silveira, às vezes parece o Forrest Gump, né? A cagada que deu certo, será?

  14. Bruno Ribeiro disse:

    Ah, caralho, um dos posts mais fodas qu você já publicou, certeza que foi o mais foda sobre educação. Valew, porra, valeu mesmo.

  15. paulo silveira disse:

    Conheci dois caras fodoes 5 estrelas um eh neuro cirurgiao que passou anos nos anjos do asfalto na via Dutra o outro foi um dos ultimos caçadores coletores da mata atlantica em comum a curiosidade sem limites e a extrema generosidade…xiii to vareando boa noite e boa sorte.
    Lux ce ta certa.
    Cassao vei,como cantava Renaton o Russo…”deixa pra laaa a Angra dos Reis”.

  16. Yra doce. disse:

    Diploma só serve para colocar na porta de casa,para

    todo mundo saber que o filho é DOUTOR.

    O bom mesmo é ele saber ganhar a vida.

    Ganhar dinheiro.

    Viver com dignidade.

    “Não trabalhar de a troco de arroz e feijão.”

  17. Yra doce. disse:

    Consertando:Não trabalhar em troca de”arroz e feijão”.

  18. Carla disse:

    Olha só, André: a FGV oferece uma porção de cursos (curtos)gratuitamente em seu site – http://www5.fgv.br/fgvonline/CursosGratuitos.aspx. É um esboço de movimento rumo ao argumento que você defende.

  19. Carlota disse:

    Será o fim da Era “aquisição de conhecimento”? Um retorno à “busca da sabedoria”?
    Novos tempos… novas formas de pensar.

    A vida é bela e viver é bom! (Vladimir Maiakovski)

  20. Cristiane disse:

    Li sua matéria e sim o oferecimento de cursos gratuitos on-line é bom demais, mas não podemos nos esquecer que a melhoria do ensino presencial também é essencial, desde o acesso até mesmo a didática, voc~e tem razão quando fala da não mudança do curriculo ano após ano, mas não se pode esquecer também o quanto são cobrados os professores ainda mais os de ensino público, na universidade, são aulas, projetos de pesquisa, alunos de mestrado, doutorado, e ainda ter tempo para escrever seus artigos, ufa. você bem sabe que uma ótima aula presencial, com a emoção do momento não tem outra igual. Mas sua matéria nos coloca a pensar, gostei muito e já fui atrás dos cursos…

  21. Claudio Prevedello Bento disse:

    Não é de hoje que existe um abismo entre o que se ensina nas escolas e o que se vive no mercado de trabalho, por exemplo. No meu caso, trabalhei com jornalismo e, atualmente, trabalho com comércio exterior, aqui em Curitiba. Apenas gostaria de saber por que tive de aprender logaritmos, reações químicas, genética e fórmulas físicas sendo que nunca usei isso em lugar algum. E as próprias faculdades (seja jornalismo, seja comércio exterior) parece que se isolam do resto do mundo. Enfiam na cabeça dos alunos várias informações que serão esquecidas depois que eles passam de ano ou conseguem o tal diploma. Que daqui a pouco não será mais útil pra nada, a não ser pra enfeitar parede.

  22. Renata disse:

    Acho muito bacana, mas como complementação do ensino.Como algo a mais. Como uma oportunidade de fazer um curso no fora sem sair de casa e por aí afora.
    Gosto de salas de aulas, do ambiente acadêmico, dos laboratórios, das bibliotecas, da cantina e daquele boteco que fica perto da universidade.
    Tenho grandes amigos que conheci na escola… amigos de anos. Tive grandes professores. Tive péssimos também, claro, quem não os teve?
    E aprendi muita coisa. Minha vida social começou nos corredores de uma escola… foi lá que tive meus primeiros amigos fora do eixo familiar, minhas primeiras festas, primeiros namoros.
    Escola não existe só para educar… há outras questões extremamente importantes envolvidas no contexto escolar.

  23. Renata disse:

    Ah… a velha questão: “Por que eu aprendi isso se eu nunca vou usar?”.
    Pois é. Mas existem profissões que tenho certeza que usam logarítmos, reações químicas e genética.
    Vc aprende isso no ensino fundamental e médio para ter um referencial.
    Se vc não aprendesse isso como seria possível escolher uma carreira, desenvolver uma paixão ainda quando criança?
    Penso assim, posso estar errada, mas acho difícil vc fazer uma opção sem conhecer as alternativas.

  24. kerrufe.blig.ig.com.br disse:

    Muito interessantes estes sistemas, mas, o que ocorre é que o mercado de trabalho não aceita esse tipo de4 sistema, cursos a distancia, compilações de trabalhos acadêmicos está relacionado a internet e muitas empresas, administradas por chefes conservadores dos velhos tempos, não cogita esta hiótese. Mas que é uma boa forma de se obter connhecimento isos é com certeza.

  25. juju disse:

    Pelo jeito , seu projeto de ter “monografias arquivadas na ECA” não vingou . Entrei lá 2 anos depois , em 85 , e não encontrei nenhum banco de dados …
    O grande problema de estudar on line (como todo tipo de relação on line )é que , se perde o principal da vida universitária que é conhecer as pessoas , comparar personalidades e o carater e a determinação de cada um e construir laços fortes (mesmo que às vezes na base da cerveja ). Isso é importante e , mais tarde , é por aí que vamos escolher com quem “formar um bom time ” no mercado de trabalho.

  26. Jefferson disse:

    Acho que peguei sua idéia sem saber: faço o 1º ano de Psicologia em uma universidade e estou coletando todo o material para disponibilizar aos próximos que entrarem na mesma.

    O único problema é que já percebo que algumas pessoas nem se dão ao trabalho de ler o que tem.

    Existe alguma solução pra preguiça de leitura?

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