5 novembro 2009
Vamos comemorar o dia do traidor

Hoje vou celebrar a traição.
A celebração é fazer o boneco de um homem, botar fogo nele, cantar canções tradicionais, estourar fogos de artifício, tomar todas.
Acontece sempre da madrugada do dia 5 de novembro. Essa hora, já foi. Só percebi hoje. Mas dá tempo de celebrar.
Na Inglaterra, Austrália, Nova Zelândia e outros países que fizeram parte do império britânico, teve festa. Exatos 404 anos que um grupo de conspiradores tentaram explodir a elite da Inglaterra.
Eles colocaram oitocentos quilos de pólvora no porão do Palácio de Westminster, na cerimônia de abertura do parlamento.
O plano era explodir tudo e derrubar o teto na cabeça de todos os parlamentares e mais o rei James I e sua família.
Quem estava de que lado é coisa que não importa mais. Importa é que não deu certo o plano, que ficou conhecido como Conspiração da Pólvora.
E que o primeiro conspirador a ser preso se tornou um símbolo eterno de traição – o boneco a ser queimado. É, mais ou menos, o Judas que malhamos nas festas latinas.

Só que sobre este a gente sabe muitos detalhes. Inclusive, que existiu mesmo.
Guy Fawkes tinha 16 anos quando decidiu trair seu país. Porque a Inglaterra vivia sob um rei protestante, que se opunha – melhor, reprimia violentamente – quem não fosse.
Puritanos e católicos eram tratados como rebeldes e esmagados. Literalmente, às vezes – uma punição popular era o esmagamento por uma rocha pesada, até a morte.
Aos 16 anos, Guy decidiu se converter ao catolicismo. Mas demorou vinte anos para ele tentar matar o rei. Nessas duas décadas, ele foi na maior parte do tempo, soldado.
Sendo que durante dez anos lutou pela Espanha, arquiinimiga da Inglaterra – enfrentou inclusive as tropas do “nosso” Maurício de Nassau, o invasor holandês de Pernambuco.
Aprendeu muito sobre explosivos. Quando chegou a hora, era o homem que os conspiradores precisavam para detonar o Parlamento. Mas Guy foi pego, pouco depois da meia noite do dia 5 de novembro de 1605.
E a história é escrita pelos vencedores. Naturalmente, ele não pensava que era um traidor. Ele tinha convicção de que matar toda a aristocracia do país era a coisa certa a fazer.
Tanto, que resistiu três dias sob tortura sem revelar quem eram os outros conspiradores. Só quando soube que eles já tinham sido revelados, confirmou o plano e nomeou todos eles.
Quer saber qual era a punição para traição?
Chama-se “hanged, drawn and quartered”.
Foi como morreu William Wallace – assistiu “Coração Valente”?
Primeiro você era enforcado, quase até a morte.
Depois, eviscerado e emasculado – ou seja, o carrasco te arrancava à faca pênis, testículos e vísceras.
Ele tinha que ser bem rápido, porque era fundamental queimar essas partes aos olhos da vítima – enquanto ela ainda vivia.
Já morto, o corpo era esquartejado.
Cabeça e os quatro membros eram colocados em estacas em pontos diferentes da cidade e deixados para apodrecer, para que toda a população percebesse o que acontecia com traidores.
Agora, quer saber como Guy Fawkes morreu?
Muito fraco depois de ser torturado, ele foi o último dos conspiradores a ser levado para a forca. Subiu lentamente os degraus.
O carrasco colocou a corda sobre o seu pescoço e puxou o nó. Guy Fawkes pulou lá de cima. A forca quebrou seu pescoço instantaneamente.
Se você acha que um governo que faz isso com seus inimigos merece ser explodido, não está sozinho.
Para algumas pessoas, Guy Fawkes se tornou um símbolo de rebelião contra um estado opressor.
Anarquistas ingleses foram os primeiros a reabilitar Fawkes. Um pôster famoso dos anos 70 proclamava, “Guy Fawkes – o último homem honesto a entrar no parlamento”.
Foi um anarquista quem mais fez para Guy Fawkes se tornar um símbolo mundial de rebeldia, mesmo para quem não fala inglês.
O nome dele é Alan Moore.

Repugnado com o governo de ultra-direita da primeira-ministra Margareth Thatcher, ele escreveu nos anos 80 um gibi chamado V de Vingança, que foi filmado faz alguns anos.
Ele explica aqui a origem de V, mas não tem legendas. Boa sorte decifrando o sotaque de Alan:
Se você não conhece, eu recomendo que você leia o gibi e só depois veja o filme. Mas por favor, faça as duas coisas. Ninguém merece passar a vida sem ler V de Vingança.
Porque é emocionante e inspirador, porque faz você pensar e, se não tomar cuidado, chorar. E, sim, dá uma gana louca de sair e explodir o Congresso. Pode ser o do Brasil mesmo.
Você até pode simular aqui.
Além disso, é o primeiro gibi moderno. É o primeiro gibi onde Alan Moore percebeu “que uma história em quadrinhos podia conter muitos temas. Podia ser romântica, e um drama político, metafísica até certo ponto; podia ser tudo isso e uma aventura ao estilo dos anos 30, e um pouco uma história de super-herói, e com um tanto de ficção científica.”
A história se passa em um futuro próximo. A Inglaterra tem um governo fascista. Um homem que se veste como Guy Fawkes começa a matar membros importantes do governo e realizar outros atos terroristas. É só isso e tudo isso.
Antes de V de Vingança, outras HQs tiveram a mesma ambição. Mas eram experiências em quadrinhos, não eram “gibi” – não tinham a sensibilidade pop, o gancho irresistível, o refrão.


O trabalho de Moore e do ilustrador David Lloyd (quase tão responsável quanto Moore pelo sucesso de V; foi dele a sugestão de que não fossem usados balões de pensamento, quase só de diálogo) é tão eterno quanto Guy Fawkes.
E, subversivamente, os dois transformaram o eterno traidor num herói – complexo, reprovável, punk, terrorista, um demônio em forma humana – mas um herói.
Hoje, em homenagem a Fawkes, Moore e Lloyd, usarei a minha querida camiseta com o V da anarquia (e da vingança) nas costas.
Vamos celebrar o 5 de novembro!
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05/11/2009 às 14:34
off topic
ontem, peguei uma Bizz antiga e por acaso, era aquela com a Discoteca Básica do Rocket to Russia.
Em 1992, quando o texto foi escrito, li com olhos de um garoto de 14 anos, e só hoje posso lhe agradecer por aquele marovilhoso e breve relato.
tenho uma coisa a dizer:o faith no more está chegando em bh.
05/11/2009 às 15:16
Sempre agradeço por ter lido todos os caras CERTOS na minha vida, até porque foram eles que sempre me ensinaram as coisas ERRADAS.
E convenhamos, as coisas erradas são muito mais divertidas.
05/11/2009 às 16:15
Cara eu trabalhei por cinco anos numa loja de quadrinhos. E acredite ou não só fui ler V de Vingança em 2008, um ano depois que eu saí da loja. Os motivos? Talvez falta de tempo, grana e momentos ideais.
Li emprestada de uma gibiteca e me bateu forte. Como a maioria dos textos do Alan Moore. Bateria muito mais quando eu andava com os punks.
Ela é a revista que eu indico quando alguém chega com aquele papo ruim de que quadrinhos é coisa para criança ou débil mental.
Deveria ser adotada nas escolas e faculdades!
05/11/2009 às 16:22
Ow Forasta! Faltou comentar sobre o novo projeto do cara, o fanzine Dodgem Logic!
05/11/2009 às 16:32
O filme V de Vingança no mes passado foi exibido em vários canais de tv por assinatura. Quem tem e teve oportunidade de ver, pode curtir.
05/11/2009 às 16:35
Andre…eu nao me canso de dizer: Voce e minha catarse!
05/11/2009 às 18:10
Gostei da sugestão de esplodir o parlamento aqui do Brasil. Um otimo horario seria a madrugada quando eles gostão de fazer aquelas votações bizarras!
André Forastieri, acompanho seu blog , gosto d+ do seu comentarios, alguem precisa dizer umas verdades necessaria. Parabens!
05/11/2009 às 19:15
Olha só, eu sou FÂ de Alan Moore, ele é um gênio das histórias em quadrinhos, que as histórias dele vai além disso, ele também é o criador de Watchmen, Constantine, Do Inferno, ele lançou até um livro saiu aqui no Brasil pela Conrad Editora que é “A Voz do Fogo”, eu indico!!
05/11/2009 às 22:51
forasta, o melhor post em muito tempo! parabéns e obrigado. abs
05/11/2009 às 23:37
aonde eu acho
06/11/2009 às 01:16
Lembrem de cinco de novembro! SEEEEEEEMPRE!
06/11/2009 às 12:59
Heder, me diga que não é o mesmo Heder do 8 de Março… Se for, lembranças ao Giannazi: lembrei-me dele ao ler esse post:)
André, caiu como uma luva!
Ah! Li RETALHOS (embora a única loja especializada em HQ na minha cidade não tivese o livro…Que pena,não?)
Abraços. Paula
06/11/2009 às 14:25
Lembrai, lembrai, o cinco de novembro
A pólvora, a traição e o ardil
06/11/2009 às 14:36
Gooostei disso, meu grisalho charmoso e favorito!
06/11/2009 às 16:23
Aqui temos algo parecido. Sábado de aleluia, véspera do Domingo de Páscoa, quando algumas pessoas queimam alguns Judas nas esquinas.
Explodir o Congresso Nacional? Alô, Bin Laden!! Nós também temos torres gêmeas. Ficam em Brasília!
15/11/2009 às 23:47
O sotaque do Alan Moore é mais fácil de entender do que o dos irmãos Gallagher.
06/01/2010 às 00:50
Excelente post