20 de outubro de 2009 - 14:06

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Onde uma moça negra já esteve

nichelle_nichols 

Quando eu trabalhava na Bizz, início dos anos 90, tínhamos muita liberdade. Mas não a liberdade de colocar um negro na capa. Tentávamos de vez em quando, mesmo assim.

Lembro de brigarmos por uma capa do Living Colour. Um dos chefes lá barrava: “negro em capa de revista não vende”.

Nunca saberei se Prince ou Jimi Hendrix venderiam muitos exemplares da Bizz, porque em todo o tempo que eu estive lá a capa só teve brancos e brancas.

Também não foi um grande problema, sério. Porque de fato rock é coisa de branco. Se você fizer uma lista com dez artistas de rock de primeiro time que são ou foram negros, te dou um doce. 

Nem acho que era racismo do chefe ou da empresa. Era um fato da vida, um pressuposto comercial. Lembrei disso quando vi as duas revistas masculinas mais vendidas do Brasil, Playboy e VIP, com negras na capa.

Silva_Ildi_AgNews

Tá certo que nenhuma das duas é uma crioula retinta. São mulatas. Ildi Silva, da VIP, é o que os americanos chamam de “high yellow”, quase branca. Juliana Alves, na Playboy, já passaria na gringa como diva do hip-hop.

São, as duas, maravilhosas. Homem brasileiro tem cada um lá seus gostos, mas nunca vi um que não caia por uma mulata.

O pressuposto comercial é que elas vão vender bastante revista. A vida da maioria parda e preta da população pode continuar sendo bem difícil, mas o Brasil mudou.

Taís Araújo, sem mostrar as partes, também está na capa de todas as revistas. Porque é a primeira protagonista negra de uma novela das oito (das nove?). Vive uma modelo. Convence, de tão magra.  

 É um marco. Como o ano quando Denzel Washington e Halle Berry faturaram Oscars.

Denzel_Washington

Para mim, que sou branco, nem tanto. Mas vá perguntar para uma adolescente negra se ela não está orgulhosa de ver tanta pele preta nas capas das revistas.

Agora: além de branco, sou chato, então queria ver Taís, ou Ildi, ou Juliana, ou qualquer jovem negra brasileira na televisão em uma posição de poder. Pode ser gostosa, não tem problema.

Digamos, como tenente de uma nave espacial no século 23. Muitos anos atrás, a comediante Whoopi Goldberg disse que devia sua carreira a uma única coisa. Ter visto na televisão uma jovem negra, bonita, inteligente e segura de si, tratando os brancos de igual para igual.

Alves_Juliana_AgNews

 Era Nichelle Nichols, a Tenente Uhura de Jornada nas Estrelas. Quando viu Nichelle na TV, Whoopi, menina, saiu gritando pela casa, “Mãe! Mãe! Tem uma moça negra na televisão e ela não é empregada!”

Muitas outras garotas negras, nos Estados Unidos e pelo mundo afora, se inspiraram em Nichelle.

Uma outra famosa é a médica Mae Jemison, a primeira astronauta negra.

Mae foi recrutada por um programa do qual Nichelle fazia parte – não de televisão, mas da NASA – com o objetivo de atrair minorias (ou seja, não-homens-brancos) para serem astronautas.

Whoopi e Mae pagaram suas dívidas depois, atuando em Jornada nas Estrelas: A Nova Geração.

Nichelle cresceu de classe média, mas seu negócio era o mundo artístico. Cantava bem. Excursionou com as bandas de Duke Ellington e Lionel Hampton. Foi coelhinha da Playboy para pagar as contas. Fez teatro. Tinha trinta e tantos quando foi escalada para Jornada nas Estrelas.

Olha ela aqui e cantando!

Depois de um ano de série, Nichelle resolveu sair, porque o papel era muito pequeno. O líder pelo direito dos negros, Martin Luther King, a convenceu a ficar. Justamente porque era um símbolo positivo, um “role model”: a única negra em posição de respeito na TV.

Ficando, seria a primeira de muitas. “Depois dessa porta abrir, nunca mais se fechará”, disse King.

O engraçado é que Uhura também foi a primeira atriz negra que eu vi na televisão, fazendo papel que não era de empregada, nem escrava em novela de época.

No Brasil, nos anos 70. Nichelle fará 77 anos no próximo 28 de dezembro. Está uma velhinha esperta e, por que não, sexy.

 Mas para mim ela terá para sempre uma tenente de comunicações de 35 anos, olhar sério, botas longas, um minivestido vermelho e um coque antigravitacional. Quem diz que moças negras não são capazes de inpirar garotinhos brancos?

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6 de outubro de 2009 - 13:34

comentarios-icon Comentário(s) 59

A ONU provou hoje que o brasileiro é burro. Mas quem lê este blog é inteligente

Eu disse que o brasileiro é burro. É uma média. Não quer dizer que todos os brasileiros são burros.

O povo que postou comentários no meu artigo, por exemplo, é bem inteligente. A maioria, claro. Sempre tem umas antas com argumentos tipo “burro é você, vai morar na gringa” etc.

Isso foi ontem.

Hoje foi divulgado que o Brasil ficou em 75º lugar, em um ranking global do IDH (índice de desenvolvimento humano).

Estamos quase na virada entre a primeira e a segunda metade dos 182 países avaliados pela ONU.

O coordenador do relatório desenvolvido pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), Flávio Comim, explica como a décima maior economia do mundo está em 75º quando se trata da qualidade de vida de sua população.

Nossos principais problemas: saúde e educação. Que são interligados, claro. Temos uma altíssima taxa de mortalidade infantil.

Especialmente entre crianças filhas de mães sem nenhum acesso à educação – neste caso, as taxas de mortalidade infantil chegam a 119 por mil nascidos vivos.

“É um número maior do que os de muitos países africanos”, diz Flávio.

Filho de mulher burra morre mais – dava uma boa manchete do saudoso Notícias Populares.

Essa é uma das grandes explicações para morrermos tão cedo. A expectativa de vida é de 72 anos em média, dez anos menos que a japonesa.

E nossa educação? Somos o país 71 do ranking de 182. Está convencido de que somos burros?

Eu estou e não tenho problema nenhum de reconhecer minha burrice. O tamanho da minha ignorância só é sobrepujado pela minha preguiça de minimizá-la. Tenho lá meus espasmos autodidatas.

Mas na prática me eduquei sobre alguns temas – um pouco de história e geografia, um pouco de economia, um teco de culinária, o arroz com feijão de história da arte, o beabá da tecnologia.

E me escondi medrosamente de outros – ciência mesmo, física, química, biologia, botânica. Fiz como todo mundo, o que me foi mais fácil.

Por isso que um ano atrás, quando Tomás foi mudar de escola, decidi que a perfeita para ele seria uma que fosse muito boa de ciências e de esportes. Porque o resto eu estimulo ele a gostar… mas não achei a que eu queria.

Como você vê, além de burro, sou preguiçoso.

E a prova definitiva é que depois de um ano de pré-primário na Cigarrinha, sete anos na EEPG Barão do Rio Branco, mais quatro no Colégio Luiz de Queiroz (pago), sempre na gloriosa Piracicaba, e de conseguir entrar na USP duas vezes (jornalismo e história), sou o famoso “curso superior incompleto”.

Jornalismo, que fiz algum esforço para completar, abandonei porque era inútil e, principalmente, chato.

História fui um dia e nunca mais voltei. Devo ser um raro caso de duplo jubilamento na USP, mas nunca me mandaram nenhuma cartinha…

Dos 75 comentários até agora, alguns simplesmente concordam ou discordam do meu texto. Que é uma provocação assumida; por que tem gente que fica se abespinhando à toa?

Os comentários mais úteis para a nossa missão impossível – encontrar algo que preste na educação nacional – são os que vão além das palmas e das pedras.

Os que sugerem algum curso de ação ou dão um depoimento iluminador.

Como o Joaquim, professor de matemática que abandonou a profissão porque não quer ensinar para quem não quer aprender.

Ou o Miguel, que acerta um alvo importante ao criticar pais que querem fazer um filho “supervencedor”.

O pobre Washington, estudando 1ª Guerra Mundial no terceiro colegial.

O Mário Meletti, que lembrou uma ideia de lei genial do Cristovam Buarque, que obrigaria políticos a matricularem seus filhos em escolas públicas.

A professora Vera Menezes, tentando enfrentar a sedução que traquitanas tecnológicas exercem sobre a molecada.

Viviane sugere entrevistar o povo da UNE – sorry, querida, vou pular essa.

Ana Luisa mata a charada: as escolas brasileiras são chatas pra burro, e por isso são feitas pra burro.

Meu favorito, naturalmente, é o (a?) Luxorum, que me chama de “meu grisalho charmoso favorito”. Tobrigado!

Também tem o pedagogo Igor, dizendo que “burrice não existe”. Existe sim, Igor, porque sua afirmação para mim é incompreensível.

Tem o Diogo, que disse que sou idêntico ao Diogo Mainardi. Que isso, ele escreve muito melhor e eu sou bem mais velho (na verdade só pareço, o que é pior).

Mas qualquer fã de Ivan Lessa e Paulo Francis sai ganhando ponto comigo.

E tem um ou outro cobrando “então, qual é a sua proposta?”

Eu detesto quando me cobram proposta.

Não sou candidato a nada. Não tenho que ter proposta porcaria nenhuma. Jornalista a favor é assessor de imprensa.

Mas vá lá, esse é o mês de fazer uma força para acreditar que meu filho pode ter uma educação decente neste país.

Então, vou tentar ser positivo. Vamos atrás das sugestões e dicas.

Agradeço.

A gente podia entrevistar o Cristovam Buarque. Ideia excelente, será que ele topa falar comigo?

Ótima dica do Bruno Ribeiro, conversar com a diretora Ana Elisa Siqueira.

E o Anderson encomenda uma maneira de educar filho sem pagar escola. Boa pauta. Também, o cara sabe como eu penso, é meu leitor desde a Bizz – pô, essa relação já dura mais que muitos casamentos, heim?

E ótima dica é ler Neil Gaiman, que realmente é o autor da citação que Ramon observou:

neil_gaiman

“I’ve been making a list of the things they don’t teach you at school.

They don’t teach you how to love somebody.

They don’t teach you how to be famous.

They don’t teach you how to be rich or how to be poor.

They don’t teach you how to walk away from someone you don’t love any longer.

They don’t teach you how to know what’s going on in someone else’s mind.

They don’t teach you what to say to someone who’s dying.

They don’t teach you anything worth knowing.”

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