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23 de outubro de 2009 às 19:33

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O poder do coitadinho

Agradeço ao Paulo Antonouza, que mandou o link deste texto que fiz há três anos e que foi usado por ele em sala de aula. O poder do coitadinho.

O poder da vítima


Rosana Hermann


Brasileiro adora coitadinho. Pode ser coitadinho social, intelectual, tanto faz. Sendo coitadinho, leva. Porque brasileiro é muito vaidoso e não há melhor exercício de vaidade no mundo do que ajudar um coitadinho ou sentir compaixão por ele. Aí sim, o vaidoso demonstra todo seu poder e superioridade. A mente nem traz pra consciência, pra não estragar a brincadeira, mas quanto mais o outro for coitadinho mais superior o ego se sente.

Daí, o culto aos coitadinhos.

Os mais espertos percebem que quando ele se mostra uma vítima, vai ter carinho, colinho, dim-dim e aplausos. Quem se faz de vítima sempre leva a melhor, mesmo estando errado. Aliás, estar certo ou errado não faz a menor diferença diante da estrondosa fúria emotiva do coitadinho.

O coitadinho comove.

Alguns espertos que descobriram isso vivem de ser coitadinhos profissionais. Queixam-se o dia todo do mundo das injustiças, do salário baixo, enfim, de absolutamente tudo. A exceção aos momentos de exposição de exemplos de vitimizações são os momentos de auto-elogio. Todo mundo ri e aplaude o coitadinho quando ele se auto-elogia. Sabe por quê? Porque o coitadinho não parece ser uma ameaça a ninguém. É só um pobre coitado.

Tá bom. Vai nessa. O coitadinho esperto é só um vaidoso que ainda não teve oportunidade de ser um tirano. Mas assim que ele começa a melhorar de vida mostra a que veio. Veio para se vingar de seu destino. Veio para colocar-se no lugar onde ele acha que merece, que é exatamente acima de todos os outros. O coitadinho acha que o mundo está em débito com ele e, portanto, tem o direito de reivindicar o que bem entender.

Eu tenho medo dos coitadinhos profissionais. Não dos coitados de fato, os miseráveis, os injustiçados, mas desse outro que descrevo.

Esse coitadinho será o primeiro a cortar a mão de quem lhe ajudou. A puxar o tapete de quem lhe ofereceu o ombro. Porque o coitadinho tem ódio de receber esmolas e migalhas. Ele nutre um ódio mortal por todas as testemunhas de sua condição de momento.

Portanto, se você tem bom coração, é sensível e preza a justiça, seja justo de verdade. Não confunda a vaidade de fazer benemerência com coitadinhos e a real vontade de ajudar alguém que necessita.

Doar-se não é dar o peixe, como se diz. É doar o que você tem de mais precioso, o seu tempo de vida na terra, para ensinar o outro a se virar sozinho.

Ser bom não é ser bonzinho. É fazer com que todos cresçam a sua volta sem medo de ser superado.

Ser bom é ser verdadeiro com o que tem, buscando sempre o melhor, mas mantendo a dignidade de não se fazer de coitado.
Nota do Editor: Rosana Hermann é Mestre em Física Nuclear pela USP de formação, escriba de profissão, humorista por vocação, blogueira por opção e, mediante pagamento, apresentadora de televisão.

Um beijo, um browse, um aperto de mouse da @rosana
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20 Comentários para “O poder do coitadinho”

  1. Rudinei disse:

    Rosana,

    ual!!!! eu assino com você.

  2. Feca disse:

    Fica cada vez melhor...esse mundo R7...
    Adorando tudo isso...e melhor ainda e saber do crescimento...no Alexa.com ja saltou da posicao 52 para a 49 em acessos...um luxo!

    Keep the good work going...

  3. Nilldo Rabello Trindade disse:

    Sufoquemos então,o coitadinho que existe em cada um de nós,agora e para sempre.
    Tem muito ex-coitadinho por aí pisando e cuspindo em quem um dia substimou a sua capacidade dele ser um carrasquinho.
    E tá dito!!

  4. Rodrigo disse:

    Muito bom o texto!
    Tenho paciência pra coitadinhos, não.

  5. Cássia disse:

    Sempre atual!
    O coitadinho ou coitadinha é justificado como sendo portador ou portadora de ausência de auto-estima.
    Vá se saber...
    O certo é que de tanto ouvir a cantilena, a gente para de escutar.
    Ou seja, segue em frente!
    ;)

  6. Jaqueline disse:

    Maravilhoso!esse texto e´ espetacular .

  7. Alexandre disse:

    Minha querida Rosana, sou seu fã incondicional, como já tive a oportunidade de demonstrar; acompanhar seu trabalho é um bride eufórico à existência. Se o texto é seu ou não, isso é apenas um detalhe, o mais importante é a sua sensibilidade e a aposta que você sempre faz no ser humano - sempre friso - VOCÊ VAI DE LEÕES À DRAGÕES com muita, muita sutileza. Um abraço fraterno.

  8. Guilhermino disse:

    Isso me fez lembrar da visita do Bush à São Paulo, todos a midia, mostrou uma mulher que foi desalojada de seu barraco(moradia e vendinha) em uma calçada proximo ao hotel. Todos trataram dela como vitima/coitadinha diante do poderose presidente americano. Esqueceram-se que ela estava invadindo um espaço público (a calçada) e mantinha um comercio totalmente ilegal.

  9. Deyse Araújo disse:

    De coitadinhos profissionais está cheio por ai... Legal o recado, nunca tinha visto por esse lado, vou prestar mais atenção daqui pra frente.Ficou engraçado a nota do leitor. Rs

  10. Mariza disse:

    Nao tinha visto esse texto(ainda nao era QL),mas nao pude deixar de relacionar com o livro de Ana Beatriz-sobre psicopatas.Um dos sinais dos psicopatas eh exatamente esse que vc descreveu.Psicopatas sao parasitas que matam ou causam um estrago enorme na vida daqueles que os apoiam. Que percepcao Rosana,parabens!

  11. josé disse:

    Não há palavras pra falar daaaaaa Rosana.Os elogios do dicionário são poucos.

  12. Edna disse:

    Concordo com a Senhora,o que nós temos de coitadinhos nesse mundo,não é normal:é coitadinho no nosso trabalho,no lugar que moramos,na política(o que existe e existiu de coitadinhos,não é brincadeira)vide o PT,os pobrezinhos,os retirantes nordestinos e de outros lugares,todos eles eram coitadinhos inofensivos.Hoje são verdadeiros cães mortais,que mordem as mãos de quem depositou nas urnas eletrônicas votos para ELES.
    Eu não tenho medo de coitadinhos:EU TENHO PAVOR!

  13. Biju/TradBr disse:

    Rosana,
    twittei o link do teu texto. Ele é simplesmente perfeito. EU gostaria de tê-lo escrito. Gostaria de ter tido essa lucidez para escrevê-lo. Porque é tudo que vejo e não consigo colocar no papel, desta forma tão clara. Parabéns mesmo pelo seu texto.

  14. Aristeu Nogueira Soares disse:

    Rosana nas Alturas, o coitadinho é aquele bíblico do qual até o pouco será tirado!

  15. vilma disse:

    é verdade cada vez fica mais aperfeiçoado e a gente precisa de curso p atender. Quem leu a veja deste domingo,eu vi uma reportagem de um casal de medicos de 70 e tantos anos casados a 45 anos,comecei a ler a reportagem,optaram p nao ter filhos p fazer carreira,ate ai tudo bem,mais hoje depois de tantos anos trabalhando,ela faz 42 cirurgias p mes na base de 15 a 30 mil reais,ele faz 30 cirurgias p mes,a consulta custa 500 reais,será que nao estava na hora de trabalharem um pouco em hospitais publicos,ja que devem estar milionarios,e nao tendo p quem deixar todo esse imperio,poderiam começar a fazer caridade,ou so o rico que tem cancer,nossa que reportagem babaca,eu achando que os dois eram benemeritos,sao nada,so pensam no bem estar deles.

  16. Marantes disse:

    Gostei muito do texto. Ele nos ajuda a refletir sobre quem é realmente o coitadinho e sugere o que fazer para ajudá-lo e também a nós mesmos.

  17. Igor M. disse:

    Gostei muito do teu texto. Tô sem palavras pra falar.

  18. Mariza P. disse:

    Temos que ter discernimento para não confundirmos o "coitado profissional" de um real sofredor e deixarmos assim de fazer algo por um ser humano necessitado.
    O Dr. Jou Eel Jia, médico e professor de medicina tradicional chinesa , num texto intitulado !A Consciência da compaixão" diz: "Ao pé da letra, compaixão significa "sofrer com", mas muitas vezes este sentimento é confundido com a pena; neste caso a confusão de valores gera a sensação de dever cumprido. Mas basta um pouco de atenção para percebermos que tratam-se de coisas distintas.
    Em primeiro lugar, pena não é virtude, mas um sentimento como outro qualquer. Quando vemos uma outra pessoa sofrendo, é claro que ficamos penalizados - afinal somos seres humanos. O que não podemos é achar que esta comoção passageira nos aproxima do outro. Com este gesto, sem perceber, nos colocamos em uma posição de superioridade, como alguém que vê um filme triste e não tem a responsabilidade sobre o seu desfecho. Tanto que, passado o impacto, voltamos aos nossos interesses, sem ter feito nada para mudar aquela situação.
    A compaixão é muito diferente, ela combina sentimento com atitude. "Sofrer com" não significa apenas render-se a dor e ao desespero alheio, mas dividir o sofrimento para encontrar uma solução conjunta. É possível fazer isso de várias formas: ouvindo, acolhendo, aconselhando, enfim, doando algo de nós. Assim podemos salvar muita gente - basta que cada um vença a indiferença e seja capaz de estender a mão ao próximo.
    O sofrimento do mundo é o meu sofrimento, simplesmente não posso ficar indiferente a ele"

  19. Adriane disse:

    Quero te pedir licença para divulgar este fantástico texto na escola onde leciono. A escola pública brasileira é uma das grandes vítimas da pedagogia do coitadinho.
    Só vou salvar em meus arquivos depois de tua licença.
    Sou tua fã, viu?
    :-*

  20. Sergio Ricardo disse:

    Atrasado na leitura do seu blog não posso deixar de falar que "Coitadinho" ou "Coitado" é aquele que sofreu um coito ou seja não é nada bom ser isso.
    Um abraço!

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